De repente tudo se iluminou. Fez-se luz. Decidi. Não quero mais esta situação para mim. Não me refiro à hipótese de não ter filhos. Refiro-me à actual situação com o meu companheiro. Não estou bem, não me sinto feliz. Decidi pôr um ponto final. Terminei com a relação. Sinto-me bem, aliviada, viva. Estava a definhar. Não lhe quero mal, antes pelo contrário. Desejo-lhe o melhor. Apenas eu não tenho que me sacrificar para que ele se mantenha confortável e inalterado. Estava a pedir-me, em nome do seu conforto, sacrifícios imensos. Ninguém pode pedir isso a ninguém.
Tenho 39 anos. Sinto - hoje - a vida de forma diferente. Venha o que vier a bem. Chega de estar sempre a lutar. A desesperar por tudo. Estou tranquila e aceitante. Se não vierem filhos, assim seja. Somos também as nossas tristezas, aquilo que não tivemos.
Termino aqui hoje, este blogue. Cumpriu uma função importantíssima nos últimos meses. Foi o meu escape, o meu gritar para o mundo. Ainda que ninguém tenha ouvido, eu pude chorar, falar, lamentar.
Abre-se um novo ciclo na minha vida. Venha o que vier, estou tranquila. Gosto de mim e daquilo que sou. Tenho confiança e esperança, não em conseguir fazer isto ou aquilo, ter aquilo ou aqueloutro, mas sim na minha capacidade de estar viva de uma forma integra e plena para os outros.
sexta-feira, 9 de outubro de 2009
quinta-feira, 24 de setembro de 2009
Conseguir
Talvez a única coisa correcta que eu possa fazer agora é não me fazer sofrer. Viver um dia de cada vez e uma situação de cada vez. Não adianta angustiar-me, ficar ansiosa, martirizada, cheia de pena de mim própria. Um passo de cada vez na vida. Tenho idade suficiente para saber que a ansiedade e a pressão que sentimos pouco ajudam. Vou ser capaz, independentemente do destino que as coisas levarem. Vou ser capaz de encontrar o meu lugar. Sinto que não tem havido justiça, é bem verdade que sinto, mas que posso fazer? Os outros são como são. Eu sou como sou. Não posso negar a minha natureza e o meu ímpeto. Tenho muita coisa nas próximas semanas, à minha espera. Vou viver cada uma delas com tempo, sem pressas, nem angústia. O novo ciclo irá sem dúvida nascer.
quarta-feira, 23 de setembro de 2009
Estou à espera
Ontem tivemos uma consulta de preparação para o próximo ciclo, que vai transferir os dois embriões que estão congelados. Sinto-me quase que anestesiada. Já pouco mexe no peito. Parece que estávamos a falar de nada, afinal. Sinto-me numa fase em que apenas avanço, sem capacidade de colocar emoção, expectativa, desejo ou seja lá o que for. Estou muito cansada. Os últimos anos têm sido difíceis, com muita desilusão. Acho que muito tenho conseguido gerir, afinal. Mas continuo muito desiludida ainda com coisas essenciais (ou será que não o são?).
Não acredito muito neste ciclo. Os embriões têm alguma fragmentação celular. Sinto que, porventura, é um passo necessário para continuar para um próximo ciclo, uma vez que estes embriões teriam sempre que ser transferidos. Mas estou pouco crente. No anterior alimentei muito mais expectativa.
Sinto que estou à espera que o universo me mande um sinal. Algo em que me apoie. Algo que me faça decidir o que vai ser a minha vida daqui em diante. Preciso de mudança. De acreditar. A minha vida profissional melhorou substancialmente. Fiz fracturas, investi muito. Agora tenho tido a recompensa. Não me posso queixar da minha situação actual. No campo afectivo é que dói mais. A fragilidade da relação com o meu companheiro e o problema da infertilidade têm sido muito difíceis de aguentar, conciliar, acreditar que posso seguir em frente. Estou à espera.
Não acredito muito neste ciclo. Os embriões têm alguma fragmentação celular. Sinto que, porventura, é um passo necessário para continuar para um próximo ciclo, uma vez que estes embriões teriam sempre que ser transferidos. Mas estou pouco crente. No anterior alimentei muito mais expectativa.
Sinto que estou à espera que o universo me mande um sinal. Algo em que me apoie. Algo que me faça decidir o que vai ser a minha vida daqui em diante. Preciso de mudança. De acreditar. A minha vida profissional melhorou substancialmente. Fiz fracturas, investi muito. Agora tenho tido a recompensa. Não me posso queixar da minha situação actual. No campo afectivo é que dói mais. A fragilidade da relação com o meu companheiro e o problema da infertilidade têm sido muito difíceis de aguentar, conciliar, acreditar que posso seguir em frente. Estou à espera.
sexta-feira, 18 de setembro de 2009
A Deus
A minha avó faleceu na terça-feira. A sua morte tocou-me fundo, num sítio que nem eu sabia que existia. Tinha 90 anos perfeitos. Sem mácula. De repente, o seu corpo decidiu adoecer. Esperou apenas uma semana e meia para se despedir dos seus e lhes deixar o aviso, mínimo, de que ia partir. Da mesma maneira que durante toda a sua vida, também na morte correu à nossa frente, sem que a conseguissemos acompanhar. Era o expoente da autonomia e independência. A noticia da sua doença soou como um soco. Era imortal e imbatível. Nada no universo faria supor que tinha que ir. A sua morte, sentia-a como algo imposto à força, arrancado apenas da compreensão, devastando os sentidos e esmagando qualquer fé. Fiquei com um buraco escuro no peito. De dor, perplexidade, tristeza. E uma saudade imensa. Fez-me reviver todos os minutos passados a seu lado, tendo-me deixado a certeza das melhores memórias. E o consolo de uma relação de 40 anos feita do melhor que pode haver. A sua vida e a sua personalidade são, para mim, exemplos. Obrigada avó, por tudo.
segunda-feira, 14 de setembro de 2009
Retalhos
Os últimos tempos têm sido estranhos. Aconteceram muitas coisas que me tocaram profundamente.
A primeira talvez tenha sido a súbita doença da minha avó. É a última avó que tenho viva. A possibilidade do seu desaparecimento mexeu profundamente comigo. Por muitas razões. Por tudo aquilo que ela é como pessoa, por encerrar um capítulo, uma ligação à terra, a rituais que nos faziam sentir inteiros. A notícia da sua doença fez-me reviver toda a minha infância, perspectivar toda a minha vida. É uma avó especial que sempre me fez sentir especial. Pensar que pode não conhecer os meus filhos magoa-me. Parece que falho naquilo que é o ciclo da vida.
No dia a seguir soube de uma antiga amiga, também ela com um problema de infertilidade, que perdeu os dois bebés que transportava. Um ainda nasceu com vida, mas partiu pouco tempo depois. Não consigo sequer imaginar o que é passar por uma experiência destas. Ter o ventre cosido de uma cesariana e estar a despedir-se de dois filhos que pouco estiveram consigo, sabendo que conseguir outra gravidez pode ser uma difícil tarefa. Senti profundamente por ela.
Dois dias depois, almocei com um tio avô. Nunca teve filhos, situação que na sua altura, mais inexplicável era pela ciência. Nunca, ela e a mulher, tocaram no assunto com a família. Eram outros tempos... De repente, diz-me que à noite costuma olhar para trás a pensar a sua vida. Uma das coisas que o inquieta é nunca ter tido filhos. Parei, surpresa e emocionada com a confidência. Disse-me que se pergunta que sentido é que a sua vida teve. Estranho o ser humano... Há coisas universais que, mesmo que todo o resto nos tenha sido de feição (como é o caso deste meu tio avô) nos marcam existencialmente. Não conseguir ter filhos é uma delas. Respondi-lhe que a vida humana é demasiado complexa para encontrar receitas certas para a felicidade e que tudo tem um sentido afinal.
Hoje, ao almoço, vi um pouco de televisão. Estava a dar um debate em que um dos temas abordados era a baixa da natalidade. Ouvi coisas gritantes de uma das palestrantes relativamente a mulheres sem filhos. Grosseiramente, assumia que uma mulher sem filhos é porque não os quis, e não porque não os pode ter. Sempre conheci mais mulheres (e homens) que não puderam, do que mulheres (e homens) que conscientemente não os quiseram.
Enfim, estranha coincidência esta em que tenho sido ultimamente bombardeada com questões sobre o ter ou o não ter. Sobre o nascer e o morrer.
Sei uma coisa. Em mim, a vivência da infertilidade e a possibilidade de vir a morrer sem filhos acrescentou-me imensa humildade e compreensão face ao sofrimento dos outros. Nada é em vão.
A primeira talvez tenha sido a súbita doença da minha avó. É a última avó que tenho viva. A possibilidade do seu desaparecimento mexeu profundamente comigo. Por muitas razões. Por tudo aquilo que ela é como pessoa, por encerrar um capítulo, uma ligação à terra, a rituais que nos faziam sentir inteiros. A notícia da sua doença fez-me reviver toda a minha infância, perspectivar toda a minha vida. É uma avó especial que sempre me fez sentir especial. Pensar que pode não conhecer os meus filhos magoa-me. Parece que falho naquilo que é o ciclo da vida.
No dia a seguir soube de uma antiga amiga, também ela com um problema de infertilidade, que perdeu os dois bebés que transportava. Um ainda nasceu com vida, mas partiu pouco tempo depois. Não consigo sequer imaginar o que é passar por uma experiência destas. Ter o ventre cosido de uma cesariana e estar a despedir-se de dois filhos que pouco estiveram consigo, sabendo que conseguir outra gravidez pode ser uma difícil tarefa. Senti profundamente por ela.
Dois dias depois, almocei com um tio avô. Nunca teve filhos, situação que na sua altura, mais inexplicável era pela ciência. Nunca, ela e a mulher, tocaram no assunto com a família. Eram outros tempos... De repente, diz-me que à noite costuma olhar para trás a pensar a sua vida. Uma das coisas que o inquieta é nunca ter tido filhos. Parei, surpresa e emocionada com a confidência. Disse-me que se pergunta que sentido é que a sua vida teve. Estranho o ser humano... Há coisas universais que, mesmo que todo o resto nos tenha sido de feição (como é o caso deste meu tio avô) nos marcam existencialmente. Não conseguir ter filhos é uma delas. Respondi-lhe que a vida humana é demasiado complexa para encontrar receitas certas para a felicidade e que tudo tem um sentido afinal.
Hoje, ao almoço, vi um pouco de televisão. Estava a dar um debate em que um dos temas abordados era a baixa da natalidade. Ouvi coisas gritantes de uma das palestrantes relativamente a mulheres sem filhos. Grosseiramente, assumia que uma mulher sem filhos é porque não os quis, e não porque não os pode ter. Sempre conheci mais mulheres (e homens) que não puderam, do que mulheres (e homens) que conscientemente não os quiseram.
Enfim, estranha coincidência esta em que tenho sido ultimamente bombardeada com questões sobre o ter ou o não ter. Sobre o nascer e o morrer.
Sei uma coisa. Em mim, a vivência da infertilidade e a possibilidade de vir a morrer sem filhos acrescentou-me imensa humildade e compreensão face ao sofrimento dos outros. Nada é em vão.
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sexta-feira, 11 de setembro de 2009
Neptuno a sair da frente
Sinto-me melhor. Talvez esteja a compreender - finalmente - a essência disto tudo, da vida, do nosso percurso cá. Estou mais serena, tranquila, aceitante. A aceitar que aquilo que tenho é aquilo que efectivamente posso ter. A vida é tão diversa na sua ocorrência. Talvez a essência seja mesmo desejar, mas sem sofrimento.
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terça-feira, 18 de agosto de 2009
Algo simples
Regressei de férias. Soube-me bem parar, embora por dentro não tenha parado um único minuto. Às vezes fazia um esforço para tentar parar, acalmar a mente. Mas em vão. Acho que toda a minha vida passou à minha frente. Acho que analisei tudo. Conclusões? Nenhuma em especial. Vontade de fugir, vontade de ficar, ressentimento, esperança, ódio, amor, compreensão, ciúme, enfim, de tudo um pouco. Sinto que como está, e refiro-me à minha situação com o meu companheiro, as coisas não podem prolongar-se muito mais tempo. É demasiado pesada a inactividade dele, eu ter sempre que carregar tudo, decidir tudo, viver tudo pelos dois. Depois, já não sou uma menina, já conheci muita gente e sei o que a vida tem para oferecer. Não há muito melhor. Se não é por uma coisa, é por outra. Estou a ter muitas dificuldades em resignar-me, aceitar, aceitar que a vida é assim. Reconheço os meus progressos, mas são tão lentos. A questão da infertilidade veio piorar tudo. Veio cair numa relação que de si já tinha muitas fragilidades. Muitas feridas expostas. Muita exigência de compreensão, tempo e paciência. Talvez seja mesmo só feita disso. Sei que recebo. E tenho recebido bastante. Mas existem falhas em áreas centrais, que são dificeis de esquecer, assobiar para o lado. Às vezes penso que um bebé era a pedra toque para equilibrar o prato na balança. Dar algum sentido e justiça à vida. Pôr-me a mim a receber, para variar. Neste momento na minha vida já não peço a relação perfeita, peço apenas algo simples: ter 1 filho.
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quarta-feira, 29 de julho de 2009
Dói apenas
Há dias horríveis. Em que apetece fugir, desistir, rasgar tudo, zangar-me definitivamente com o mundo. Deus me ajude, que às vezes não sei onde vou buscar as forças. Tenho tanto à minha frente em que trabalhar, produzir, enriquecer-me, mas esta ferida aberta rasga com uma violência que me deixa sem forças, sem energia, sem fé. Quero a minha paz. Só quero a minha paz. Já vai sendo tempo dela.
terça-feira, 28 de julho de 2009
Sarar
A depressão abate-se sem qualquer aviso. Existem mais que razões para que ela apareça, mas quer-se acreditar que seremos poupados a essa parte. Quem dera puder desligar o interruptor e só acordar daqui a uns tempos, quando estivesse já a iniciar novo tratamento. Mas não, é necessário fazer o luto de cada tentativa falhada. Reviver tudo, uma nova vez. Sentir o medo, a desesperança. Tudo isto implica com o meu dia-a-dia. Falta a motivação, a alegria para o quotidiano. É razoável que assim aconteça. Afinal somos feitos de quê? Ferro? A recuperação é lenta...
Ontem, quando cheguei a casa, vinha de um dia de lágrimas mal contidas. Senti uma tristeza horrível o dia todo. Precisei falar com o meu companheiro. Tenho muita sorte com ele. É profundo, empático, compreensivo. Chorei um pouco, soube-me bem. Compreendo que é mesmo necessário pôr cá para fora, partilhar a dor e a tristeza. Disse-me que também ele estava triste e desiludido. Senti-o na sua voz. Emocionou-se também.
De alguma forma, sinto-me orgulhosa de nós dois. Existe uma enorme compreensão e respeito por aquilo que um e outro passa. Não existe culpa, ressentimento ou dedos apontados. Existe reconhecimento de todo o esforço envolvido, de parte a parte. É impossível um e outro investirem exactamente na mesma medida, nas mesmas coisas. Antes, é uma dança a dois, em que da diferença dos passos se constrói um todo harmonioso.
Mais um dia. Um novo sol. Um pouco mais de alívio. O tempo ajuda ao luto. Pegar em qualquer coisa do nosso quotidiano também. Recomeçar devagar, com respeito pelos "pés torcidos", que não nos deixam correr normalmente. Dar-nos tempo. Inclusive para escrever no blogue!
Ontem, quando cheguei a casa, vinha de um dia de lágrimas mal contidas. Senti uma tristeza horrível o dia todo. Precisei falar com o meu companheiro. Tenho muita sorte com ele. É profundo, empático, compreensivo. Chorei um pouco, soube-me bem. Compreendo que é mesmo necessário pôr cá para fora, partilhar a dor e a tristeza. Disse-me que também ele estava triste e desiludido. Senti-o na sua voz. Emocionou-se também.
De alguma forma, sinto-me orgulhosa de nós dois. Existe uma enorme compreensão e respeito por aquilo que um e outro passa. Não existe culpa, ressentimento ou dedos apontados. Existe reconhecimento de todo o esforço envolvido, de parte a parte. É impossível um e outro investirem exactamente na mesma medida, nas mesmas coisas. Antes, é uma dança a dois, em que da diferença dos passos se constrói um todo harmonioso.
Mais um dia. Um novo sol. Um pouco mais de alívio. O tempo ajuda ao luto. Pegar em qualquer coisa do nosso quotidiano também. Recomeçar devagar, com respeito pelos "pés torcidos", que não nos deixam correr normalmente. Dar-nos tempo. Inclusive para escrever no blogue!
segunda-feira, 27 de julho de 2009
Vamos andando
São sustos de angústia. Momentos em que nos lembramos do que está a acontecer. Interrogações profundas de como é que se poderá sobreviver a isto. Depois, instantes de pausa, em que se esquece. Depois volta à lembrança. Compreendo mais hoje quando leio pessoas a dizer que este é um problema que não pode durar para sempre. É horrivelmente desgastante. Toca um dos pontos mais sensíveis da vida e sempre pelo lado negativo, "o que não se tem". Magoa, desgasta, corrompe. Essencialmente desacredita. Desacredita-nos da vida e de qualquer lógica subjacente. É andar, é andar, minha gente. Como se não pudéssemos esperar por nada. Simplesmente andar por cá.
sexta-feira, 24 de julho de 2009
Parar
Ontem fiquei em casa. Precisei de um intervalo, de um espaço para mim. Há que encontrar tempo e espaço para a alma e para o corpo. Cada vez sinto mais que a vida não é feita de correria, e que estas nos trazem muito pouco. Não se pode fingir que se está "óptimo" e que o dia a seguir é um dia igual aos outros, com muita produtividade e energia no trabalho. O tempo que retirei para mim foi muito bom, fez-me sentir melhor. Hoje regressei ao trabalho, com outro alento. Triste, mas de pé, e com capacidade de reagir face ao que tenho que fazer. Olho para trás e sinto que sempre me esforcei tanto. Em todas as dimensões da minha vida, pessoal, familiar, profissional, tudo... Nada vale a pena tanto esforço. Com isto quero eu dizer que investir é necessário, mas com consideração por nós próprios, pelas nossas necessidades de pausa, de descanso. E sobretudo, compreender que, apesar de todo o esforço e investimento, existe uma parte da vida que não se controla, não se domina. Simplesmente acontece, independentemente de qualquer lógica.
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quinta-feira, 23 de julho de 2009
Ter com quem
Negativo. Li-o à transparência no boletim das análises, até nem precisava virar a folha. Ficámos sem reacção, quase. Profundamente tristes e desiludidos. Pouco falámos até chegar a casa. Não sei bem descrever o que senti. Quase como se aquela cena não estivesse a acontecer, e tudo se tratasse de um filme. Acho que as minhas emoções já estão muito protegidas e o investimento, a esperança depositada, é menor, é cautelosa. Em casa, sentámo-nos na sala e alí ficámos, a olhar em frente, de mãos dadas, a soltar a fala. Chorei em silêncio, as lágrimas caiam-me devagar. Aliviada, ao mesmo tempo, por saber qual o meu real. Triste, pela ausência do milagre. Mas, devo confessar, que na minha profunda tristeza e desilusão, existia uma enorme serenidade. A ideia de não puder ter filhos faz crescer muito. Obriga-nos a pensar a vida exactamente como ela pode ser; brutal, sem lógica ou justiça. Deliciosa também. Ontem, quando olhava para o meu companheiro, amei-o profundamente. Gosto muito deste homem e de tudo o que trouxe para a minha vida. Neste momento, não a consigo imaginar sem ele. Estamos nisto, os dois, a 100%. O investimento é enorme, de parte a parte. Houve uma altura em que a minha cabeça vagueava, em planos de "salvamento" para mim mesma. Hoje já não quero ser salva de coisa nenhuma. A Bela Adormecida não existe. Existe aquilo que existe. Eu e ele. O nosso amor. O meu talento. O talento dele. A família. Os amigos. A esperança. A capacidade de a perder e voltar a viver.
Vamos voltar a tentar. Temos 2 embriões "congelados" à espera. Já falámos com a nossa médica e a consulta de avaliação ficou para depois das férias. Sem sobressaltos. Fico espantada com a serenidade que sinto. Hoje, sinto-me mais tranquila face à probabilidade de eventualmente ficar sem filhos. A felicidade é de facto um lugar estranho, sem receita certa. E estranhamente, a infertilidade, pelo menos no meu caso, obrigou-me a saber mesmo, mas muito mesmo, o que sinto pelo meu companheiro. Isso dá uma força e uma tranquilidade imensas.
Ontem, adormeci, exausta, ao colo do meu companheiro. É, de facto, uma benção ter com quem partilhar.
Vamos voltar a tentar. Temos 2 embriões "congelados" à espera. Já falámos com a nossa médica e a consulta de avaliação ficou para depois das férias. Sem sobressaltos. Fico espantada com a serenidade que sinto. Hoje, sinto-me mais tranquila face à probabilidade de eventualmente ficar sem filhos. A felicidade é de facto um lugar estranho, sem receita certa. E estranhamente, a infertilidade, pelo menos no meu caso, obrigou-me a saber mesmo, mas muito mesmo, o que sinto pelo meu companheiro. Isso dá uma força e uma tranquilidade imensas.
Ontem, adormeci, exausta, ao colo do meu companheiro. É, de facto, uma benção ter com quem partilhar.
terça-feira, 21 de julho de 2009
Regresso ao "nós"
A minha segunda FIV foi vivida em privacidade, apenas entre mim e o meu companheiro. Inclusivamente cheguei a mentir a uma pessoa, dizendo que não estávamos a tentar. Fiquei, um dia, a pensar porque é que desta vez não tinha tido nenhuma - mas mesmo nenhuma! - necessidade de contar a ninguém. Julgo que por não estar já a viver o trauma. No primeiro ciclo de FIV que fizemos, tínhamos recebido há pouco tempo a notícia do nosso problema, eu estava em estado de choque, incrédula e revoltada com o que me estava a acontecer. Senti muita necessidade de desabafar, de gritar, de sentir a empatia dos outros. Agora isso já passou. Posso voltar ao interior da minha relação e pensar e "fazer" filhos como qualquer casal. Na nossa intimidade e privacidade. Sinto-me muito bem assim. Durante todo o processo, em momento algum, senti a tentação de revelar que estávamos a tentar novamente. Penso, mas isto é muito subjectivo, que uma vivência excessivamente "comunitária" destas questões origina ainda mais stress, uma vez que se tem que contar com as expectativas dos outros, com a sua vontade de apoiar (nem sempre oportuna), com a sua vontade em saber, com a sua desilusão, com o querermos tratar bem os amigos e contar-lhes "atempadamente" o que vai acontecendo. Nem sempre isto acrescenta calma, intimidade, privacidade.
Este blog serve apenas como diário, não tenho nenhuma ideia de o divulgar em massa. Se alguém o encontrar... melhor, mas será um acaso. Divulguei-o a uma mulher com a qual tenho imensa empatia e respeito, e que enfrenta já uma história de infertilidade muito prolongada. Sinto bondade no seu coração e por isso senti vontade de o mostrar.
Este blog serve apenas como diário, não tenho nenhuma ideia de o divulgar em massa. Se alguém o encontrar... melhor, mas será um acaso. Divulguei-o a uma mulher com a qual tenho imensa empatia e respeito, e que enfrenta já uma história de infertilidade muito prolongada. Sinto bondade no seu coração e por isso senti vontade de o mostrar.
Os opostos
Amanhã faço o teste de gravidez. Estes últimos dias são tão difíceis...! Só apetece fechar-me em casa, não ter que falar com ninguém, não ter que responder a nada, não ter que me preocupar com nada. Apenas passar o tempo e encontrar-me perante o resultado. Necessito muito do meu real para viver, para assentar e continuar, a partir do que seja. Duvido muito que seja positivo, sinto os sintomas "normais" de quem vai menstruar. O meu companheiro, desta vez, e talvez porque me vê algo incrédula, diz acreditar que é positivo e que a gravidez resultou. Da primeira vez, senti o que estou a sentir agora, contudo, o desejo era tão intenso que racionalizei, pensado que fosse uma adaptação normal do corpo. Desta vez resolvi olhar às coisas como elas são. Se sinto sintomas pré-menstruais, então é isso que tenho que ter em conta e pensar desde já nessa hipótese. Contudo, tenho também sintomas que não recordo de os ter da primeira vez. Contudo, e como é óbvio, não tenho nenhum registo disso, apenas a minha memória das sensações de então.
Este é, sem dúvida, um momento muito difícil. Numa hora acreditamos numa coisa, na outra já o cenário é outro. É um esforço de preparação para apenas dois cenários possíveis e que, em si, nada têm em comum. Um provoca um conjunto de sentimentos, outro provoca outro, totalmente diferentes. Um bem mais difícil que o outro, sem dúvida.
Acredito honestamente que terei a capacidade de enfrentar o pior e o melhor, com a ajuda do meu companheiro.
Este é, sem dúvida, um momento muito difícil. Numa hora acreditamos numa coisa, na outra já o cenário é outro. É um esforço de preparação para apenas dois cenários possíveis e que, em si, nada têm em comum. Um provoca um conjunto de sentimentos, outro provoca outro, totalmente diferentes. Um bem mais difícil que o outro, sem dúvida.
Acredito honestamente que terei a capacidade de enfrentar o pior e o melhor, com a ajuda do meu companheiro.
segunda-feira, 20 de julho de 2009
Dias dificeis
Hoje sinto-me triste. Deprimida até. Todos os sinais no meu corpo apontam que vou menstruar. É difícil continuar a acreditar que a gravidez tenha resultado. Sinto-me muito frustrada e magoada. Custa muito aguentar este embate. Coloca-me em causa, no meu percurso de vida e nas escolhas que eu fui fazendo ou pensando que fui fazendo. Diferentemente da primeira vez, desta vez sinto-me zangada. Como se o destino já estivesse a exagerar. Não é só o bebé. É muita coisa mais na vida, que não tive ou pela qual tive que lutar com forças desmesuradas. Às vezes, sinto que a vida é mesmo um conjunto de banalidades e que ingénua fui eu em pensar que isto teria alguma emoção. Pode ter, mas para muitos seres humanos, não tem. Terei que me resignar e aceitar que sou um desses. Esforcei-me tanto, ao longo do meu percurso. Lutei tanto por mim e pelos outros. Investi tanto em tantas áreas. E parece que nunca saio do sítio. Hoje, sinto-me de facto muito triste, mesmo muito triste. Precisava do meu milagre. E assustador é sentir que cada vez tudo menos me importa. Mesmo o meu milagre.
sexta-feira, 17 de julho de 2009
Paciência
Recebi os resultados das análises à progesterona, estava tudo bem. Contudo, sinto muita "actividade" nos ovários e começo a suspeitar do bom final. Estou mais calma que na primeira vez, lá isso é verdade, mas os últimos dias são mesmo os mais dificeis. Apetece fechar os olhos e encontrar-me na próxima quarta-feira, com o resultado na mão. Tenho mais necessidade do real, do que continuar em qualquer fantasia ou expectativa. Mas o tempo não pode avançar para mim, e não tenho como ter senão paciência. No fim-de-semana vou para fora, é bom para ajudar a aliviar. Depois, são mais dois dias e já posso então fazer a análise. É estranho este momento, que nos pode mudar a vida para sempre. Gostava mesmo que viesse.
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Os tratamentos de FIV
quarta-feira, 15 de julho de 2009
Uma semana
Os dias passam. Tranquilos - na medida do possível. Tenho tido alguma "distracção", o que ajuda. Interiormente sinto que esta não é a minha fase. É a vontade dos pequenitos e de Deus, talvez. Não consigo ter nenhuma percepção física do que se passa. Sinto-me um pouco diferente, mas pode ser devido à toma suplementar de progesterona. Sinto-me preparada para o que vier. Apenas na próxima semana saberei o que aconteceu, embora tudo custe, naturalmente. A ansiedade não dói tanto como da última vez. Julgo que reconheço que não controlo a totalidade das coisas, apenas uma parte, e por isso há que aceitar o devir da vida. A ideia que posso ter outras oportunidades para tentar também me ajuda a encarar melhor uma má notícia.
Hoje fiz a análise à progesterona, falta apenas uma semana para ver o fim deste ciclo. Como sou muito regular, da última vez foi a menstruação que me avisou de que o resultado tinha sido negativo, muito embora tenha feito o teste depois. A privacidade com que tudo correu ajudou a não cair do pedestal, de forma mais dura. Agora, vamos a ver. O futuro a Deus pertence.
Hoje fiz a análise à progesterona, falta apenas uma semana para ver o fim deste ciclo. Como sou muito regular, da última vez foi a menstruação que me avisou de que o resultado tinha sido negativo, muito embora tenha feito o teste depois. A privacidade com que tudo correu ajudou a não cair do pedestal, de forma mais dura. Agora, vamos a ver. O futuro a Deus pertence.
segunda-feira, 13 de julho de 2009
Descansar em
Deixar fluir, é a mensagem que o universo me manda constantemente. Deixar fluir. Entregar, confiar, descansar em...
sexta-feira, 10 de julho de 2009
Um dia magnífico
Ontem fiz a transferência de dois embriões top. Foi um dia magnífico por muitas razões. Em primeiro lugar porque soubemos que o resultado da fertilização tinha sido qualitativamente superior à nossa primeira tentativa. Na primeira tentativa de FIV a qualidade dos embriões foi fraca. Assim, nesta segunda tentativa, mudou-se a medicação do ciclo de estimulação, com excelentes resultados. Também, o meu companheiro fez a sua medicação por mais tempo, o que teve bons resultados também. Conseguimos dois embriões top, que foram transferidos e congelamos dois, o que na primeira vez nem sequer tinha sucedido. A forma como o ciclo decorreu foi também, e de forma abismal, totalmente diferente. Os ovários responderam com moderação e passei bem o tempo todo. Fizeram-se algumas alterações que também ajudaram a melhorar a resposta à seguir à punção. O meu corpo ficou "normal", sem todos os problemas nos intestinos, quebras de tensão e hipoglicémia que me acompanhou da primeira vez. A mudança, e sobretudo termos sido actores na mudança, soube muito bem. E depois, tomamos conta do "exterior". Ambiente tranquilo, nada de stress ou pressões, seja de que ordem for, despensa cheia de petiscos (saudáveis, claro!), enfim, um conjunto de circunstâncias que ajudaram a acalmar e a viver cada passo e cada momento com muita tranquilidade.
Ontem, quando me deitei na cama a repousar da transferência, senti uma enorme sensação de felicidade. É possível avançar, melhorar, fazer diferente, ser mais feliz em tudo isto. Desta vez vivi o processo todo com uma energia, paz e mesmo prazer, totalmente diferentes. Recordo o dia da punção. Sentia vontade de a fazer. Pressa em lá estar. Não porque me sentisse mal fisicamente e quissesse acabar com, mas sim porque dentro de mim sentia as diferentes etapas como fazendo parte do mesmo milagre e, por isso, vivê-las era um prazer. O meu companheiro - é um querido! - diz que "sou um espanto, não me queixo de nada". Senti-me, de facto, (devo confessá-lo) muito, mas muito orgulhosa de mim mesma. Também estes são momentos de auto-reconhecimento, das nossas capacidades, da forma como sentimos e olhamos o mundo. Um dia magnífico... sem dúvida.
Ontem, quando me deitei na cama a repousar da transferência, senti uma enorme sensação de felicidade. É possível avançar, melhorar, fazer diferente, ser mais feliz em tudo isto. Desta vez vivi o processo todo com uma energia, paz e mesmo prazer, totalmente diferentes. Recordo o dia da punção. Sentia vontade de a fazer. Pressa em lá estar. Não porque me sentisse mal fisicamente e quissesse acabar com, mas sim porque dentro de mim sentia as diferentes etapas como fazendo parte do mesmo milagre e, por isso, vivê-las era um prazer. O meu companheiro - é um querido! - diz que "sou um espanto, não me queixo de nada". Senti-me, de facto, (devo confessá-lo) muito, mas muito orgulhosa de mim mesma. Também estes são momentos de auto-reconhecimento, das nossas capacidades, da forma como sentimos e olhamos o mundo. Um dia magnífico... sem dúvida.
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segunda-feira, 29 de junho de 2009
Tudo a correr bem
Continuo bem, sem qualquer sintoma. Sinto-me até bastante leve. Hoje fiz uma ecografia de monitorização do ciclo e fiquei satisfeita com os resultados. Os ovários responderam efectivamente da forma que se queria, ou seja, com menor velocidade e menor produção e, espera-se, com mais qualidade. Fisicamente é muito mais tolerável. Continuo a fazer a minha vida completamente normal. Sinto que o impacto físico será menor e que, por isso, terei melhores reacções do que na primeira vez, em que me senti estafada e muito pressionada a nível físico.
Sinto-me feliz. É bom caminhar para aquilo que se quer. Ontem, eu e o meu companheiro falávamos sobre tudo isto. O medo de não conseguirmos uma gravidez está lá mas, como concluímos, não controlamos tudo na vida e existe uma parte que está absolutamente fora do nosso controlo. É preciso alguma humildade no meio disto tudo.
Sinto-me feliz. É bom caminhar para aquilo que se quer. Ontem, eu e o meu companheiro falávamos sobre tudo isto. O medo de não conseguirmos uma gravidez está lá mas, como concluímos, não controlamos tudo na vida e existe uma parte que está absolutamente fora do nosso controlo. É preciso alguma humildade no meio disto tudo.
domingo, 28 de junho de 2009
Imperfeição
Continuo o tratamento, ao que parece com melhores resultados do que o primeiro. A estimulação está a correr melhor e os ovários a fazer um caminho mais lento e sossegado. No primeiro ciclo de FIV ocorreu uma hiper-estimulação, com um "excesso" de resposta dos ovários. Sinto-me bem, talvez ligeiramente alterada com as hormonas, um pouco irritada e impaciente. Nestas alturas aquilo que é mais frágil na nossa vida assume grandes proporções. As minhas inquietações mais profundas, na minha vida e na relação com o meu companheiro, vêm todas à tona. É algo inquietante, dá-nos um sentimento de insegurança no caminho. É por aqui? Tenho mesmo a certeza? E se?
É preciso respirar, relativizar. A minha vida é tão imperfeita quanto a dos outros.
É preciso respirar, relativizar. A minha vida é tão imperfeita quanto a dos outros.
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Os tratamentos de FIV
quinta-feira, 25 de junho de 2009
Corpo e mente
Ontem fiz uma ecografia de vigilância do ciclo de FIV. Estava tudo bem. Durante os tratamentos não penso no que esteja a acontecer no meu corpo, mas imediatamente antes de uma ecografia fica-me a dúvida e a inquietação para saber se está tudo bem. Fiquei mesmo um pouco nervosa. Afinal, tudo estava bem. Hoje já vou iniciar nova medicação. Tenho-me sentido bem, sem qualquer efeito secundário que interfira na minha vida. Já organizei o meu tempo de descanso para o período final (antes e depois da punção). Inquestionavelmente a experiência do 1º ciclo de FIV permite-nos ter um maior controlo no segundo. Essencialmente controlam-se outras "variáveis" que na experiência anterior nos apanharam de surpresa, nem sempre com os melhores resultados. Não quero com isto dizer que podem ser determinantes para a gravidez. Quero antes dizer que são fundamentais para a paz e tranquilidade do corpo e espírito da mulher, enquanto pessoa.
segunda-feira, 22 de junho de 2009
Serenidade
Continuo bem disposta. As injecções também. Nada de efeitos secundários, continuo com a minha vida normal. Hoje veio a menstruação, tal como a minha médica tinha referido. O meu corpo está a responder bem, pelos vistos. O tratamento não me traz qualquer angústia ou ansiedade, como já me trouxe. Estou com vontade de ir até ao fim, nada me assusta. Eu e o meu companheiro estamos muito bem, muito apaixonados. Da minha parte, sinto-me a viver cada dia. Também tenho que fazer outras coisas, também elas importantes, e por isso não estou apenas centrada em apenas uma coisa. O meu companheiro tem até viajado, e eu tenho ficado no meu ritmo e nas minhas rotinas, bem disposta. Sinto-me muito diferente da primeira vez. Com mais prazer, mais serenidade.
quarta-feira, 17 de junho de 2009
Emoções
Cada dia que passa sabe bem. Aproxima-se. Mas sem pressas. Sentindo o corpo a fazer o que lhe compete. Com calma. As emoções vão-se falando, com calma também, saboreando a vida, afinal. Haverá algo de mais bonito do que fazer um filho? Há que apreciar. Sentir. Como diz aquela canção do Roberto Carlos ("Emoções"):
Mas eu estou aqui
Vivendo esse momento lindo
De frente pra você
E as emoções se repetindo
Em paz com a vida
E o que ela me trás
Na fé que me faz
Otimista demais
Se chorei ou se sorri
O importante
É que emoções eu vivi...
Mas eu estou aqui
Vivendo esse momento lindo
De frente pra você
E as emoções se repetindo
Em paz com a vida
E o que ela me trás
Na fé que me faz
Otimista demais
Se chorei ou se sorri
O importante
É que emoções eu vivi...
terça-feira, 16 de junho de 2009
"Eles não sabem que o sonho..."
Os dias de tratamento vão passando. Esta parte não custa, não existe nenhum efeito secundário. As emoções é que são mais difíceis de viver. Será que vou conseguir? Vem aí mais uma desilusão? Ontem no trabalho apareceu uma nova colega. Sentou-se na secretária ao lado da minha e quando cheguei, já ela estava sentada. Comecei a trabalhar e a certa altura ouço a sua conversa com outra colega. Está grávida. Pela primeira vez fiquei incomodada. Não me impressionam os bebés, as grávidas, a conversa dos filhos. Genuinamente. Mas sentir que vou ser confrontada todos os dias com essa realidade, fez-me impressão. Parece que a minha limitação para ter filhos ficou mais evidente, mais realçada, naquela pessoa em concreto. Mais doeu quando disse ser já o terceiro filho. Não é fácil. Ontem, eu e o meu companheiro brincamos a calcular o mês de nascimento. Sinto tanta reserva em mim e nele quando se fala deste assunto. Tanto peso no coração. Sinto que eu e ele precisávamos muito deste acontecimento para fortalecer a nossa relação, para acreditar que o sonho é possível.
sábado, 13 de junho de 2009
Março de 2010
Ontem iniciei o tratamento para o nosso 2º ciclo. Soube-me bem, soube-me muito bem estar neste caminho outra vez. Deus permita que dê certo. Fui à consulta, fiz uma ecografia (estava tudo bem) e iniciei a medicação. Já sou mestre a dar injecções a mim mesma. Já não me causa qualquer ansiedade ou receio. Existe uma parte de mim muito feliz com a probabilidade de puder ficar grávida. Que benção seria. Parece que há uma parte de nós que renasce, como se um cúmulo de forças estivesse adormercido à espera do momento ou da inspiração certa. Deus me ajude a que Março seja o meu mês, do eu, da minha total expansão, do encontro, da inspiração.
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quarta-feira, 10 de junho de 2009
E depois do adeus?
Quando me sentia a desesperar, a não sentir o pé em lado nenhum, veio uma palavra de simpatia, de conforto, de alento, de "conte comigo para o que for preciso" da minha médica ginecologista. É impossível passar por uma situação destas sem palavras de simpatia, apoio e conforto. Às vezes, sinto-me alienada, sem raiz, sem pé. Apenas a esbracejar para me manter à tona. Este é um tempo dificil para mim. A relação com o meu companheiro nem sempre é fácil, no trabalho não posso dar parte de fraca, e para ter um filho tenho inúmeras barreiras à frente. A concretização dos meus sonhos atrasa-se indefinidamente. Ainda não perdi a esperança, mas tenho um enorme medo de futuras desilusões. Até onde aguentarei? E se não aguentar, o que me espera? O que farei de mim?
segunda-feira, 8 de junho de 2009
Receber
Hoje senti-me profundamente cansada. Não apenas pela questão de infertilidade e pelos tratamentos que nos esperam. A minha vida está cheia de situações para as quais tenho dedicado imenso tempo e esforço. Tenho sentido a minha ansiedade a crescer. A crescer exponencialmente. Hoje senti claramente que tinha que me retirar e abrandar o ritmo. Preciso mesmo de um milagre, do meu bebé a vir, para encontrar algum ponto de equilíbrio na minha vida, ou que outro milagre me aconteça. Mas definitivamente, sinto que não irei conseguir suportar a minha situação actual por muito mais tempo.
quarta-feira, 27 de maio de 2009
Bom porto
Hoje, já vindo do nada, recebi uma resposta da minha amiga. Desculpou-se com uns dias de ausência do trabalho. Manifestou a sua simpatia pela situação e deu-me uma mensagem de esperança. Percebi que não fui uma prioridade para ela, mas contudo agradeço o seu apoio, quando o entendeu dar. Há que reparar aquilo que pensei inicialmente, não estava correcto. Fico aliviada de a situação ter chegado a bom porto.
terça-feira, 26 de maio de 2009
Vontade de ficar
Ultimamente ando muito "faladora". Talvez porque tenho muita coisa a correr ao mesmo tempo na minha vida. Pessoal, profissional, com os amigos, enfim, em todas as esferas. Não deixa de ser bom sinal, mas consome-me bastante energia mental. Não me concentro, não me foco. Ando bem disposta, com mais certezas sobre mim e os meus sentimentos, mas talvez cansada dos últimos anos que tem sido profícuos em acontecimentos. Hoje em dia a vida é muito exigente. Luta-se por um trabalho e depois por o manter. Luta-se por uma relação e depois por a manter. Agora, luto por um filho. Damos atenção e cuidados à família e aos amigos. Avançamos com todas as feridas antigas e medos. Só quando o tempo passa é que nos apercebemos de tudo o que passamos, das mazelas que se geraram e de como efectivamente estávamos crispados e magoados com as coisas. Hoje, olho para trás e vejo que a primeira FIV que realizámos o foi nas piores condições emocionais. A seguir à descoberta da nossa infertilidade. A seguir a esperarmos que as notícias fossem melhores, quando não o foram. A seguir ao susto, ao medo, ao choque da revelação. Quando almas e corpos se revoltavam face ao que sentiamos como algo injusto e ingrato. Não tinha havido tempo para sarar, para relativizar, para integrar, ainda que um pouco, a situação com tudo o que de novo trouxe. Por vezes relativizamos o impacto daquilo que nos acontece, ou mesmo subestimamos, quando há que dar a real importância ao que vivemos. É importante seguir em frente. Não me arrependo de termos tentado a nossa 1ª FIV na altura que foi. Só isso nos permitiu viver e experimentar, para depois ir integrando uma nova forma de sentir. Apenas agora - porque me sinto melhor - é que vejo que ambos estávamos psicologicamente em baixo e eu, pessoalmente, muito assustada com a revelação e a sentir uma profunda divisão interna: vontade de fugir e vontade de ficar. Hoje tenho vontade de ficar.
segunda-feira, 25 de maio de 2009
Sol à vista
E já está! Já estou a realizar o meu 2º ciclo de FIV. Tenho a primeira ecografia marcada e mais alguns passos dados nesse sentido. Sinto-me contente e com muita esperança. É bom caminhar para aquilo que queremos. O conhecimento acumulado da primeira experiência vai também ajudar muito, sem dúvida. Já conto com os dias em que vou precisar de descansar, bem com todos os outros detalhes que me escaparam da primeira vez. E vai estar sol, é verão, sabe melhor fazer um bebé assim. Hoje estou contente.
Novos episódios
A minha amiga de adolescência continua... em silêncio. Na excepção porém de me ter enviado um daqueles e-mails que circulam na internet com uma reportagem sobre...imagine-se...pais! Um artigo que tece considerações sobre as práticas educativas dos pais de hoje, importância da educação dos filhos, de amar os filhos, etc. Coincidência?
Estou espantada, diria mesmo perplexa, com tamanha desadequação. Quanta falta de generosidade, de abertura, de empatia pelo outro. Ao mesmo tempo horroriza-me adivinhar os sentimentos que por alí andam. Sentimento de superioridade? De incontida alegria por ver os outros "fracassar"? De sentir a sua vida melhor que a dos outros? E chega a revelar um certo sadismo, por querer picar exactamente onde sabe que mais dói ao outro. Julgo ser este um capítulo que eu devo esquecer rapidamente. Deixá-la entregue à sua imensa pena e misericórdia, e a perder esta bonita jornada. Felizmente que me posso orgulhar de ter mais amigos que me tem expressado todo o seu apoio.
Este blog sabe mesmo bem para desabafar... Que bom é poder chegar aqui e dizer o que me vai na alma, independentemente de a quem chega. Refresca-me a alma e organiza-me os pensamentos.
Estou espantada, diria mesmo perplexa, com tamanha desadequação. Quanta falta de generosidade, de abertura, de empatia pelo outro. Ao mesmo tempo horroriza-me adivinhar os sentimentos que por alí andam. Sentimento de superioridade? De incontida alegria por ver os outros "fracassar"? De sentir a sua vida melhor que a dos outros? E chega a revelar um certo sadismo, por querer picar exactamente onde sabe que mais dói ao outro. Julgo ser este um capítulo que eu devo esquecer rapidamente. Deixá-la entregue à sua imensa pena e misericórdia, e a perder esta bonita jornada. Felizmente que me posso orgulhar de ter mais amigos que me tem expressado todo o seu apoio.
Este blog sabe mesmo bem para desabafar... Que bom é poder chegar aqui e dizer o que me vai na alma, independentemente de a quem chega. Refresca-me a alma e organiza-me os pensamentos.
sexta-feira, 22 de maio de 2009
A "logística" da gravidez
Ontem visitei a minha médica ginecologista para lhe pedir alguns apoios (prescrições para análises e coisas semelhantes) para o meu próximo ciclo de tratamento. Foi muito calorosa e ofereceu toda a sua ajuda. Saí do seu consultório reconfortada e animada. Sabe bem, sabe mesmo muito bem, quando o caminho nos é facilitado.
Uma FIV, para além de mexer profundamente com os afectos e com o nosso corpo, exige um esforço logístico considerável. Visitas ao médico, ecografias, análises ao sangue, idas à farmácia, tomas de medicação a horas certas, apenas para referir uma parte. E, como dizia o poeta (adulterado por mim), a vida não pára para que se tenha um filho. Continua-se a trabalhar, a ver gente, a ter horários para cumprir, fazer refeições, arrumar a casa, etc. A determinada altura, temos mesmo que nos organizar para um período de descanso, o que implica uma coordenação grande com o local de trabalho e com o companheiro. E nem sempre se consegue ter humor suficiente para gerir todas as tarefas "preparatórias".
Vem aí uma fase muito complexa, sem dúvida, mas carregada de esperança. Estou certa que a experiência da primeira vez me vai ajudar para facilitar a segunda. Tenho uma noção mais precisa daquilo que é necessário e de como me posso vir a sentir em termos físicos. E sinto menos ansiedade... estranhamente? Estou mais tranquila, com vontade de investir, mas consciente que - de todo - não controlo tudo.
Uma FIV, para além de mexer profundamente com os afectos e com o nosso corpo, exige um esforço logístico considerável. Visitas ao médico, ecografias, análises ao sangue, idas à farmácia, tomas de medicação a horas certas, apenas para referir uma parte. E, como dizia o poeta (adulterado por mim), a vida não pára para que se tenha um filho. Continua-se a trabalhar, a ver gente, a ter horários para cumprir, fazer refeições, arrumar a casa, etc. A determinada altura, temos mesmo que nos organizar para um período de descanso, o que implica uma coordenação grande com o local de trabalho e com o companheiro. E nem sempre se consegue ter humor suficiente para gerir todas as tarefas "preparatórias".
Vem aí uma fase muito complexa, sem dúvida, mas carregada de esperança. Estou certa que a experiência da primeira vez me vai ajudar para facilitar a segunda. Tenho uma noção mais precisa daquilo que é necessário e de como me posso vir a sentir em termos físicos. E sinto menos ansiedade... estranhamente? Estou mais tranquila, com vontade de investir, mas consciente que - de todo - não controlo tudo.
quarta-feira, 20 de maio de 2009
Passo a passo
Continua esta a ser uma estranha experiência, mas ao mesmo tempo que fortalece. Continuo sem qualquer notícia da minha amiga. À medida que o tempo passa, sinto o problema mais longe, tenho que o admitir. E, ao mesmo tempo, vai-se instalando uma certa tranquilidade, uma segurança sobre aquilo que sou, o que penso, o que quero. Realmente, chega-se a uma idade em que nos apetece muito separar o trigo do joio. Em que a verdade nos dá tranquilidade, seja ela qual for. Sabe-me muito bem não estar já muito preocupada com esta amiga. Afinal... no computo das coisas, que importância é que tem? Os outros ganham espaço junto de nós quando para isso se esforçam, quando nisso investem. Quando não, apenas se tratam de pessoas do nosso circulo que navegam, sem especial papel. Ou talvez, daqui a algum tempo, me aperceba que tudo não passou de um mal entendido. Espero que assim seja.
segunda-feira, 18 de maio de 2009
Revelações
Estranha sensação de continuar sem notícias ou reacção da minha amiga. Até hoje não tive qualquer reacção dela após eu ter revelado que tenho um problema de infertilidade. Não recebeu o e-mail? Não me parece a resposta mais provável. Esteve ausente nestes dias? Pouco provável também. Ficou sem palavras? Estranho.
Sinto, sem dúvida, uma certa insegurança quanto à sua reacção. Continuo a achar que é inevitável assumir a minha vida, com tudo aquilo que ela contêm e, sobretudo, não ter medo de ser eu, nos caminhos que a vida me traçou. A reacções negativas ou menos respeitosas estamos sempre sujeitos ao longo da vida, sendo que o contrário também é verdade. É impossível prever a reacção dos outros. Contudo, é inevitável que nas dinâmicas da amizade e da família sintamos apreensão face à ideia que vão fazer de nós. Tenho uma amiga que teve uma filha com uma deficiência. Houve uma amiga dela que reagiu sempre com um ar pungente, de mal disfarçada "pena", premiando-a sempre com um olhar carregado de tristeza, que a fazia sentir uma infeliz, sem outros recursos dignos de admiração. Acabou, inevitavelmente, por se afastar desta amiga, tal era o mau-estar que lhe fazia sentir. Como face a outros assuntos, o tema da infertilidade também decide a forma como os outros nos olham e sentem.
Sinto, sem dúvida, uma certa insegurança quanto à sua reacção. Continuo a achar que é inevitável assumir a minha vida, com tudo aquilo que ela contêm e, sobretudo, não ter medo de ser eu, nos caminhos que a vida me traçou. A reacções negativas ou menos respeitosas estamos sempre sujeitos ao longo da vida, sendo que o contrário também é verdade. É impossível prever a reacção dos outros. Contudo, é inevitável que nas dinâmicas da amizade e da família sintamos apreensão face à ideia que vão fazer de nós. Tenho uma amiga que teve uma filha com uma deficiência. Houve uma amiga dela que reagiu sempre com um ar pungente, de mal disfarçada "pena", premiando-a sempre com um olhar carregado de tristeza, que a fazia sentir uma infeliz, sem outros recursos dignos de admiração. Acabou, inevitavelmente, por se afastar desta amiga, tal era o mau-estar que lhe fazia sentir. Como face a outros assuntos, o tema da infertilidade também decide a forma como os outros nos olham e sentem.
sexta-feira, 15 de maio de 2009
Verdade sem medo
Ontem revelei a uma amiga de longa data, da adolescência, o meu (nosso) problema de infertilidade. Fi-lo em conversa por e-mail, uma vez que ela possui um horário de trabalho dificil de compatibilizar com o meu. Fi-lo em resposta a uma pergunta directa dela, a "inevitável" quando é que eu e o meu companheiro temos filhos. Pedi-lhe para não revelar a ninguém, uma vez que ainda me estava a habituar à ideia. No meu íntimo, ao decidir revelar, para além da amizade que existe, senti que nada tenho a esconder. A infertilidade é uma doença, não é nada que se possa ou deva ter vergonha. Não escolhe pessoas. Ao contar, senti que tinha o direito à liberdade de dizer a verdade sem medo. Afinal, porque é que os casais infertéis sem devem esconder? Depois fiquei a pensar no que tinha feito. Senti-me insegura. E se a minha vida e a minha privacidade não fossem respeitadas? E se dali viessem palavras arrastadas de compaixão, carregadas daquele indisfarçável sentimento de superioridade "coitada", "tens tanto azar...". E se a notícia fosse revelada a amigos comuns, mesmo eu pedindo para não a ser? Quantas vezes não existe aquela vontade incontrolável para revelar o "picante" da vida alheia, especialmente quando se trata de coisas negativas? Enfim... dúvidas e mais dúvidas. A amizade sabe ser também um lugar estranho. Julgo não haver outra saída a não ser lidar com a situação e enfrentar exactamente aquilo que se apresente.
quinta-feira, 14 de maio de 2009
O mistério da vida
Aproxima-se o momento em que irei tentar uma nova FIV. Por um lado, sinto alguma tranquilidade pela experiência dada pela primeia FIV. Nestes tratamentos, nada como passar por elas para compreender como é que o corpo reage e que tipo de exigências faz. Inclusive que tipo de apoios são necessários para o período em causa. Existe um aspecto, do qual não consegui cuidar completamente na primeira vez, que é o completo descanso. É importante que a "futura mamã" não seja importunada por questões profissionais, ou outras, e que conte com todo o tempo para descansar. Desta vez vai ser diferente.
Depois, e à medida que o tempo passa, tem que se começar a gerir os sentimentos: há que acreditar num desenlace positivo, mas prepararmo-nos para mais um falhanço. Não é fácil a gestão destes opostos. Às vezes penso que não me devo preocupar e simplesmente deixar-me ir. Seja o que for. Percebo que não há nada que eu possa fazer para que o resultado seja num sentido ou noutro. Li sobre casais que conseguem uma gravidez quando já pouco acreditavam. Outros, que conseguem quando ainda acreditavam profundamente. Enfim, tudo isto permanece um mistério. De alguma forma, sinto que aquilo que estiver escrito, vai acontecer. Num sentido ou noutro.
Depois, e à medida que o tempo passa, tem que se começar a gerir os sentimentos: há que acreditar num desenlace positivo, mas prepararmo-nos para mais um falhanço. Não é fácil a gestão destes opostos. Às vezes penso que não me devo preocupar e simplesmente deixar-me ir. Seja o que for. Percebo que não há nada que eu possa fazer para que o resultado seja num sentido ou noutro. Li sobre casais que conseguem uma gravidez quando já pouco acreditavam. Outros, que conseguem quando ainda acreditavam profundamente. Enfim, tudo isto permanece um mistério. De alguma forma, sinto que aquilo que estiver escrito, vai acontecer. Num sentido ou noutro.
quinta-feira, 23 de abril de 2009
Ganhar o presente
A felicidade é talvez o maior dos abismos. Aquele no qual causa maior medo de entrar. Estranho? Talvez não. Quanto me custa ser feliz? Acreditar? Aceitar? Viver a minha vida? Muito. É inquestionavelmente mais fácil permanecer na mágoa do passado ou na angústia do futuro. Quanto não custa viver o presente, sem pressas pela verificação do futuro e sem remoer o passado, como se da rosca moída saísse a luz. E no entanto... que maravilha viver simplesmente, com a certeza da inevitabilidade do bom e do mau. Afinal, não custa. Nada muda, a não ser o espaço maior do presente ficar mais leve, bem mais leve.
quinta-feira, 16 de abril de 2009
Direitos inalienáveis
Agrada-me sentir que não preciso de mergulhar mais no assunto. Pensar e tornar a pensar. Procurar e tornar a procurar. Remoer e remoer, até ao cansaço. É bom ter conseguido libertar-me. Não que o tenha feito de forma consciente. Aconteceu e soube-me muito bem tê-lo atingido. Já não consulto a Internet vinte vezes por dia. Já não tenho a mente lá, na dor. Não conto os dias. Aceito o que vier, na capacidade do meu esforço e do meu direito – absoluto – a não sofrer.
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quarta-feira, 8 de abril de 2009
Fé
A infertilidade trouxe-me um medo. Melhor, confirmou-o. A de que nada me corre bem. Qualquer passo a que me proponho na vida tem sido dado com enorme custo. Apercebi-me ontem que tinha o peito cheio de medo. De desespero mesmo. Tinha perdido, definitivamente, toda a confiança no universo e naquilo que ele me pode trazer de bom. Preciso de voltar a acreditar e a ter confiança. Tudo tem um sentido. Tudo faz sentido. Preciso deixar que a vida me surpreenda.
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sexta-feira, 3 de abril de 2009
Simplesmente
Há dias em que o peito se fragmenta, em mil bocados. Bocados que voam em todas as direcções, e deixam apenas dor e vazio ao centro. Nem se acredita que seja possível voltar a juntar as peças outra vez. Contudo, não existe grande solução senão continuar, simplesmente. Talvez sem quase sentir, mas na certeza porém de não danificar aquilo que é mais bonito e essencial na vida: dar e receber amor. E quando isso acontece, volta alguma paz. Existe algum consolo. Os bocados voltam a unir-se outra vez.
segunda-feira, 30 de março de 2009
Poeira
Hoje já estou do lado de cá. A esperança de uma gravidez desfez-se.
Confirmei o que mais temia. Um bebé na minha vida iria fazer muita diferença. Muita mesmo. Que sensação de paz e apaziguamento... Olhava para o meu companheiro e sentia uma intimidade tão doce e límpida. Um sentido de gratidão, uma razão de ser. Que fantástica sensação.
A infertilidade é, de facto, uma prova duríssima para um casal. Gosto profundamente do meu companheiro, mas parece que fica um nó, uma cortina de tristeza por aquilo que posso não viver com ele. Não o culpo. Não se trata de culpa. É antes um sentimento de perplexidade perante o que me está a acontecer. Às vezes penso que vou acordar e que nada disto está a acontecer. Sei, porque bem me conheço, que esta situação me tem trazido uma profunda angústia e sofrimento. Acordo muitas vezes de noite, com um sentimento de sufoco. Como se me estivessem a retirar o ar. Sinto que me pedem um preço. Sinto que é injusto. Mas, no fundo, sei que não o é. Basta olhar à volta. A vida de todos é tão imperfeita. Conheço pessoas que passaram por coisas tão dificeis. Não se trata de pagar, trata-se de viver.
Confirmei o que mais temia. Um bebé na minha vida iria fazer muita diferença. Muita mesmo. Que sensação de paz e apaziguamento... Olhava para o meu companheiro e sentia uma intimidade tão doce e límpida. Um sentido de gratidão, uma razão de ser. Que fantástica sensação.
A infertilidade é, de facto, uma prova duríssima para um casal. Gosto profundamente do meu companheiro, mas parece que fica um nó, uma cortina de tristeza por aquilo que posso não viver com ele. Não o culpo. Não se trata de culpa. É antes um sentimento de perplexidade perante o que me está a acontecer. Às vezes penso que vou acordar e que nada disto está a acontecer. Sei, porque bem me conheço, que esta situação me tem trazido uma profunda angústia e sofrimento. Acordo muitas vezes de noite, com um sentimento de sufoco. Como se me estivessem a retirar o ar. Sinto que me pedem um preço. Sinto que é injusto. Mas, no fundo, sei que não o é. Basta olhar à volta. A vida de todos é tão imperfeita. Conheço pessoas que passaram por coisas tão dificeis. Não se trata de pagar, trata-se de viver.
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sexta-feira, 27 de março de 2009
A fronteira
Ver concretizado o desejo de um filho, de uma gravidez, é realmente passar para outra dimensão. Actualmente suspeito que estou grávida. É absolutamente fantástico o que se vive apenas só com a suspeita. Mil cenários, mil alegrias, que se desenham no ar, com vida própria. Tudo fica fora de controlo, mesmo que a mente, desesperada com o rebuliço, procure acrescentar ordem. Em segundos, vive-se toda a possibilidade. À medida que os dias passam a fantasia cresce. Quero rapidamente saber, mas a espera impõe-se. Por momentos penso que é uma absoluta loucura e que posso de repente acordar e ter que regressar ao ponto de partida, à necessidade de enfrentar um longo caminho de tratamentos e esperas. A linha de divisão é tão amarga. Estou a tentar deixar-me ir. Quanto custo...
sábado, 21 de março de 2009
Panos de palco
Apercebi-me em conversa com uma amiga que o avançar nesta questão é essencialmente individual. Talvez o seja comigo, possuo uma relativa autonomia. Contava-lhe da minha situação e da hipótese de um filho nunca vir a acontecer. Numa tentativa de consolo, que lhe agradeço, tentou simplicar as consequências. No entanto... não ter um filho não é substituível por nada. Não é algo que se possa reparar por outras experiências ou vivências. É um pano de fundo que se instala, em permanência, e com o qual somos obrigados a viver. Não se esquece. Não se distancia. De facto, não existem palavras de consolo possiveis. O estar é, de facto, indivisível.
Existem coisas na vida que não se consolam. Nem se partilham.
Observam-se apenas, em respeito.
Existem coisas na vida que não se consolam. Nem se partilham.
Observam-se apenas, em respeito.
terça-feira, 17 de março de 2009
"Como água que corre"
É bom sentir o tempo a passar e nada ficar na mesma. Aquilo que eu sinto, a forma como olho esta situação e como ela se encaixa na minha vida. Há que confessar que a seguir a uma primeira tentativa falhada, toda a nossa energia se concentra na resolução desse mesmo momento. Segue-se muita dor, amargura, desespero, auto complacência e frustração. Também esperança e fé, mas essencialmente é negativo o que se instala. É bom sentir o efeito reparador do tempo e a nossa capacidade de resolver e de nos adaptar. O sofrimento não faz sentido se não for para nos alterar e fazer ver o mundo de forma diferente. Quero voltar a tentar, mas agora sinto-me muito bem sem o estar a fazer. Apetece-me gozar a vida, como ela se me põe agora. Sinto-me indubitavelmente mais forte, para encarar todos os cenários. Sabe bem, sabe muito bem, estar aqui. Tudo tem um sentido. Talvez seja preciso muita liberdade interna para se ser capaz de o ver.
quinta-feira, 12 de março de 2009
Desaparecer
Hoje é um daqueles dias em que a tristeza impera. Espalhada, como água que se infiltra na terra. Cegando, sugando a força. Quer-se desaparecer. Não se conhecer, não ser a mesma pessoa. Ser outro alguém. Sem tristeza e sem dor.
terça-feira, 10 de março de 2009
Pode-se apreciar?
Julgo que qualquer privação na vida, desde que nos toque em algo importante e fundamental, nos faz pensar sobre o todo. Afinal, de onde vêm as minhas fontes de satisfação? O que me faz feliz? O que é para mim estruturante? Recordo-me de ter lido algures, nuns escritos de um psicólogo, que se cresce quando no meio da desilusão e frustração somos capazes de estabelecer prioridades. Quando, olhando àquilo que temos (companheiro, família, amigos, profissão, talentos, etc.) conseguimos sentir o que verdadeiramente nos apoia. Uma grande desilusão pode dar a falsa sensação de vazio. De não se ter nada importante, estruturante. Por momentos, apaga o resto. É um momento perigoso, que pode criar rupturas com aquilo que existe verdadeiramente na vida de alguém. De repente, a satisfação já não vem de lado nenhum. O trabalho é fastidioso, os amigos apáticos, o companheiro irrelevante. Desvaloriza-se, com o inerente risco de perca.
Sinto um grande contentamento por não me sentir assim. Talvez porque a vivência da infertilidade me toca num momento da vida em que já possuo algumas certezas. Julgo que este é também um momento para se saber o que se tem.
Sinto um grande contentamento por não me sentir assim. Talvez porque a vivência da infertilidade me toca num momento da vida em que já possuo algumas certezas. Julgo que este é também um momento para se saber o que se tem.
segunda-feira, 9 de março de 2009
As gavetas
Dou por mim e continuo às voltas. A regressar aos mesmos pensamentos, a quebrar o ciclo – mínimo – de concentração em que estava, para pensar novamente no assunto, e em todas as probabilidades, e sobretudo, para pensar na dor. Mais uma visita à Internet à procura daquela pista que vai animar, esclarecer, tudo transformar. Ou retirar a esperança de vez, quem sabe? Sente-se o cansaço. Não quero estar assim, penso que devo reagir, mas o coração e a mente falham. No meu caso, é-me difícil porque tenho uma profissão que exige concentração e esforço intelectual, o que não me ajuda a distrair. É impossível compartimentar a cabeça. Quando se pensa, o pensamento vai rápido para aquilo que dói e magoa e não para aquilo que, objectivamente, eu deveria estar a fazer. Sinto a tristeza. Imensa, como um mar, no qual navego com a cabeça ligeiramente à tona. Sinto a desmotivação, o meu mexer automático e desligado do mundo. Conduzo, falo, almoço, raciocino, mas não estou cá.
Lembro-me do meu companheiro e enterneço-me. O amor dele faz-me muito bem.
Lembro-me do meu companheiro e enterneço-me. O amor dele faz-me muito bem.
quinta-feira, 5 de março de 2009
Nós e os outros
Como se lida com a tristeza e a frustração dos outros? Dos pais, irmãos, amigos, que devagar começam a adivinhar que alguma coisa se passa? Como dizer-lhes, sabendo que vão sofrer? Como resguardar a privacidade do casal num momento destes?
No primeiro ciclo de FIV que fizemos, não me lembro na minha vida de ter mentido a tanta gente ao mesmo tempo. As faltas ao trabalho, o cansaço com que nos apresentamos, o incómodo do corpo, tudo é explicado com recurso à imaginação. Não se quer logo revelar a causa das coisas. Julgo que por acreditar que talvez não seja preciso esse passo tão definitivo. Acalento-me a pensar que conseguirei uma gravidez antes de ter que revelar ao mundo a verdade. E se a tiver que revelar, que seja em glória e não em fracasso.
Revelar perturba-me. Imagino a preocupação e demonstração de afecto, mas acrescenta todo um conjunto de expectativas para lidar com. Falar do que aconteceu, resultados, prognósticos, dias de procedimentos, tudo passa a ser público. O querer saber é natural nos outros. As ofertas para apoiar também. As sugestões, as palavras de consolo que, muitas vezes, não acrescentam sentido. Nestas alturas falta a paciência.
No primeiro ciclo de FIV que fizemos, não me lembro na minha vida de ter mentido a tanta gente ao mesmo tempo. As faltas ao trabalho, o cansaço com que nos apresentamos, o incómodo do corpo, tudo é explicado com recurso à imaginação. Não se quer logo revelar a causa das coisas. Julgo que por acreditar que talvez não seja preciso esse passo tão definitivo. Acalento-me a pensar que conseguirei uma gravidez antes de ter que revelar ao mundo a verdade. E se a tiver que revelar, que seja em glória e não em fracasso.
Revelar perturba-me. Imagino a preocupação e demonstração de afecto, mas acrescenta todo um conjunto de expectativas para lidar com. Falar do que aconteceu, resultados, prognósticos, dias de procedimentos, tudo passa a ser público. O querer saber é natural nos outros. As ofertas para apoiar também. As sugestões, as palavras de consolo que, muitas vezes, não acrescentam sentido. Nestas alturas falta a paciência.
quarta-feira, 4 de março de 2009
O tempero do desejo
A ideia de não ter filhos traz-me perplexidade. Em parte porque não corresponde a nada daquilo com que fomos educados desde pequenos e a toda a idealização pessoal do que seja a vida e o amor. É uma situação excepcional na vida das pessoas, nunca se esperando que nos toque a nós. Quando em adultos nos dizem “talvez… não” o confronto é imenso. Acima de tudo porque é imposto, retirando-nos a hipótese de optar, numa área que sempre sentimos que seria vivida livremente, em pleno, e que, por isso, seria extraordinariamente compensatória.
A ideia de não ter filhos carrega um estranho sentimento de solidão. Como se, de repente, ficássemos mais sós. Como se uma parte da nossa vida, certa de êxtase, ficasse abruptamente esvaziada e nos fosse dada a tarefa – impossível – de a compensar. Se sim, muito bem, mas e se não? Como o compensar? Como o sarar? Pensa-se em tudo. Num esforço de realismo, o que não implica obviamente desistência. Talvez o não querer ser apanhado completamente desprevenido, tal a força do desejo. As águas misturam-se. Quer-se, e ao mesmo tempo preparamo-nos para a desilusão, num esforço que classifico como francamente violento. Acima de tudo porque se tem medo, muito medo mesmo, do dia em que nos possamos vir a confrontar com o não final, com a última tentativa gorada e nos vermos perante a ingrata tarefa de, sozinhos, recriar o desejo e o sonho para outras paragens, incapazes de igualar.
A ideia de não ter filhos carrega um estranho sentimento de solidão. Como se, de repente, ficássemos mais sós. Como se uma parte da nossa vida, certa de êxtase, ficasse abruptamente esvaziada e nos fosse dada a tarefa – impossível – de a compensar. Se sim, muito bem, mas e se não? Como o compensar? Como o sarar? Pensa-se em tudo. Num esforço de realismo, o que não implica obviamente desistência. Talvez o não querer ser apanhado completamente desprevenido, tal a força do desejo. As águas misturam-se. Quer-se, e ao mesmo tempo preparamo-nos para a desilusão, num esforço que classifico como francamente violento. Acima de tudo porque se tem medo, muito medo mesmo, do dia em que nos possamos vir a confrontar com o não final, com a última tentativa gorada e nos vermos perante a ingrata tarefa de, sozinhos, recriar o desejo e o sonho para outras paragens, incapazes de igualar.
segunda-feira, 2 de março de 2009
Saber
Na passada semana soube que o resultado do primeiro ciclo de FIV (Fertilização in Vitro) que realizamos foi negativo.
Recordo-me de ter visto, há muitos anos, um filme norte-americano que contava a seguinte história verídica. Um casal tinha duas filhas e a dada altura estas, tinham cerca de cinco e sete anos, adoecem com uma doença que nenhum médico conseguia diagnosticar. Depois de recorreram a inúmeros especialistas, os pais acabam por encontrar um que a consegue identificar. Ambas as meninas sofriam de uma doença rara (cujo nome já não recordo) que, entre outros efeitos, não lhes permitia suportar a luz solar. A doença era incurável, pelo que as duas meninas teriam que viver para sempre afastadas da luz e irradiação solar. As alterações que isto trouxe às crianças e à família foram esmagadoras. Todos passaram a ter que viver no escuro. A casa e o carro tinham as janelas permanentemente tapadas. Durante o dia as crianças não podiam sair à rua, o que lhes sugou, num ápice, toda a normalidade da sua vida anterior. Quando o faziam, tinham que ter o corpo completamente tapado, o que atraía os olhares e os comentários das pessoas. A família acabou por sofrer a incompreensão da comunidade envolvente, que não compreendia os “estranhos hábitos” a que se sujeitavam. Os pais acabam por se desempregar e mudar de cidade. A doença em causa, de ocorrência verdadeiramente excepcional, tinha origem genética. Ambos os pais se submeteram a testes para averiguar qual dos dois é que transportava o gene. A questão mais se punha, uma vez que a mãe tinha um filho de um primeiro casamento, saudável até então. Os resultados são esmagadores. Ambos os pais tinham aquele gene, de natureza raríssima. O médico diz-lhes, com tristeza, procurando expressar o carácter verdadeiramente excepcional daquela situação que “eles eram as últimas pessoas no mundo que se podiam ter juntado”. Para ambos, a revelação é avassaladora. O pai, desfeito, sai do consultório. A mãe fica, lavada em lágrimas. E pergunta ao médico, no seu imenso sofrimento: “sabe o que é viver na escuridão?”. Não – responde este, olhando-a com profunda compaixão – mas sei que é uma bênção ter com quem partilhar.
Sei que é uma bênção ter com quem partilhar. Foi esta frase que me ficou. Fez-me sentido na altura. Hoje, mais sentido me faz. A desilusão é ainda mais insuportável quando vivida sozinho.
Recordo-me de ter visto, há muitos anos, um filme norte-americano que contava a seguinte história verídica. Um casal tinha duas filhas e a dada altura estas, tinham cerca de cinco e sete anos, adoecem com uma doença que nenhum médico conseguia diagnosticar. Depois de recorreram a inúmeros especialistas, os pais acabam por encontrar um que a consegue identificar. Ambas as meninas sofriam de uma doença rara (cujo nome já não recordo) que, entre outros efeitos, não lhes permitia suportar a luz solar. A doença era incurável, pelo que as duas meninas teriam que viver para sempre afastadas da luz e irradiação solar. As alterações que isto trouxe às crianças e à família foram esmagadoras. Todos passaram a ter que viver no escuro. A casa e o carro tinham as janelas permanentemente tapadas. Durante o dia as crianças não podiam sair à rua, o que lhes sugou, num ápice, toda a normalidade da sua vida anterior. Quando o faziam, tinham que ter o corpo completamente tapado, o que atraía os olhares e os comentários das pessoas. A família acabou por sofrer a incompreensão da comunidade envolvente, que não compreendia os “estranhos hábitos” a que se sujeitavam. Os pais acabam por se desempregar e mudar de cidade. A doença em causa, de ocorrência verdadeiramente excepcional, tinha origem genética. Ambos os pais se submeteram a testes para averiguar qual dos dois é que transportava o gene. A questão mais se punha, uma vez que a mãe tinha um filho de um primeiro casamento, saudável até então. Os resultados são esmagadores. Ambos os pais tinham aquele gene, de natureza raríssima. O médico diz-lhes, com tristeza, procurando expressar o carácter verdadeiramente excepcional daquela situação que “eles eram as últimas pessoas no mundo que se podiam ter juntado”. Para ambos, a revelação é avassaladora. O pai, desfeito, sai do consultório. A mãe fica, lavada em lágrimas. E pergunta ao médico, no seu imenso sofrimento: “sabe o que é viver na escuridão?”. Não – responde este, olhando-a com profunda compaixão – mas sei que é uma bênção ter com quem partilhar.
Sei que é uma bênção ter com quem partilhar. Foi esta frase que me ficou. Fez-me sentido na altura. Hoje, mais sentido me faz. A desilusão é ainda mais insuportável quando vivida sozinho.
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