segunda-feira, 30 de março de 2009

Poeira

Hoje já estou do lado de cá. A esperança de uma gravidez desfez-se.
Confirmei o que mais temia. Um bebé na minha vida iria fazer muita diferença. Muita mesmo. Que sensação de paz e apaziguamento... Olhava para o meu companheiro e sentia uma intimidade tão doce e límpida. Um sentido de gratidão, uma razão de ser. Que fantástica sensação.

A infertilidade é, de facto, uma prova duríssima para um casal. Gosto profundamente do meu companheiro, mas parece que fica um nó, uma cortina de tristeza por aquilo que posso não viver com ele. Não o culpo. Não se trata de culpa. É antes um sentimento de perplexidade perante o que me está a acontecer. Às vezes penso que vou acordar e que nada disto está a acontecer. Sei, porque bem me conheço, que esta situação me tem trazido uma profunda angústia e sofrimento. Acordo muitas vezes de noite, com um sentimento de sufoco. Como se me estivessem a retirar o ar. Sinto que me pedem um preço. Sinto que é injusto. Mas, no fundo, sei que não o é. Basta olhar à volta. A vida de todos é tão imperfeita. Conheço pessoas que passaram por coisas tão dificeis. Não se trata de pagar, trata-se de viver.

sexta-feira, 27 de março de 2009

A fronteira

Ver concretizado o desejo de um filho, de uma gravidez, é realmente passar para outra dimensão. Actualmente suspeito que estou grávida. É absolutamente fantástico o que se vive apenas só com a suspeita. Mil cenários, mil alegrias, que se desenham no ar, com vida própria. Tudo fica fora de controlo, mesmo que a mente, desesperada com o rebuliço, procure acrescentar ordem. Em segundos, vive-se toda a possibilidade. À medida que os dias passam a fantasia cresce. Quero rapidamente saber, mas a espera impõe-se. Por momentos penso que é uma absoluta loucura e que posso de repente acordar e ter que regressar ao ponto de partida, à necessidade de enfrentar um longo caminho de tratamentos e esperas. A linha de divisão é tão amarga. Estou a tentar deixar-me ir. Quanto custo...

sábado, 21 de março de 2009

Panos de palco

Apercebi-me em conversa com uma amiga que o avançar nesta questão é essencialmente individual. Talvez o seja comigo, possuo uma relativa autonomia. Contava-lhe da minha situação e da hipótese de um filho nunca vir a acontecer. Numa tentativa de consolo, que lhe agradeço, tentou simplicar as consequências. No entanto... não ter um filho não é substituível por nada. Não é algo que se possa reparar por outras experiências ou vivências. É um pano de fundo que se instala, em permanência, e com o qual somos obrigados a viver. Não se esquece. Não se distancia. De facto, não existem palavras de consolo possiveis. O estar é, de facto, indivisível.
Existem coisas na vida que não se consolam. Nem se partilham.
Observam-se apenas, em respeito.

terça-feira, 17 de março de 2009

"Como água que corre"

É bom sentir o tempo a passar e nada ficar na mesma. Aquilo que eu sinto, a forma como olho esta situação e como ela se encaixa na minha vida. Há que confessar que a seguir a uma primeira tentativa falhada, toda a nossa energia se concentra na resolução desse mesmo momento. Segue-se muita dor, amargura, desespero, auto complacência e frustração. Também esperança e fé, mas essencialmente é negativo o que se instala. É bom sentir o efeito reparador do tempo e a nossa capacidade de resolver e de nos adaptar. O sofrimento não faz sentido se não for para nos alterar e fazer ver o mundo de forma diferente. Quero voltar a tentar, mas agora sinto-me muito bem sem o estar a fazer. Apetece-me gozar a vida, como ela se me põe agora. Sinto-me indubitavelmente mais forte, para encarar todos os cenários. Sabe bem, sabe muito bem, estar aqui. Tudo tem um sentido. Talvez seja preciso muita liberdade interna para se ser capaz de o ver.

quinta-feira, 12 de março de 2009

Desaparecer

Hoje é um daqueles dias em que a tristeza impera. Espalhada, como água que se infiltra na terra. Cegando, sugando a força. Quer-se desaparecer. Não se conhecer, não ser a mesma pessoa. Ser outro alguém. Sem tristeza e sem dor.

terça-feira, 10 de março de 2009

Pode-se apreciar?

Julgo que qualquer privação na vida, desde que nos toque em algo importante e fundamental, nos faz pensar sobre o todo. Afinal, de onde vêm as minhas fontes de satisfação? O que me faz feliz? O que é para mim estruturante? Recordo-me de ter lido algures, nuns escritos de um psicólogo, que se cresce quando no meio da desilusão e frustração somos capazes de estabelecer prioridades. Quando, olhando àquilo que temos (companheiro, família, amigos, profissão, talentos, etc.) conseguimos sentir o que verdadeiramente nos apoia. Uma grande desilusão pode dar a falsa sensação de vazio. De não se ter nada importante, estruturante. Por momentos, apaga o resto. É um momento perigoso, que pode criar rupturas com aquilo que existe verdadeiramente na vida de alguém. De repente, a satisfação já não vem de lado nenhum. O trabalho é fastidioso, os amigos apáticos, o companheiro irrelevante. Desvaloriza-se, com o inerente risco de perca.

Sinto um grande contentamento por não me sentir assim. Talvez porque a vivência da infertilidade me toca num momento da vida em que já possuo algumas certezas. Julgo que este é também um momento para se saber o que se tem.

segunda-feira, 9 de março de 2009

As gavetas

Dou por mim e continuo às voltas. A regressar aos mesmos pensamentos, a quebrar o ciclo – mínimo – de concentração em que estava, para pensar novamente no assunto, e em todas as probabilidades, e sobretudo, para pensar na dor. Mais uma visita à Internet à procura daquela pista que vai animar, esclarecer, tudo transformar. Ou retirar a esperança de vez, quem sabe? Sente-se o cansaço. Não quero estar assim, penso que devo reagir, mas o coração e a mente falham. No meu caso, é-me difícil porque tenho uma profissão que exige concentração e esforço intelectual, o que não me ajuda a distrair. É impossível compartimentar a cabeça. Quando se pensa, o pensamento vai rápido para aquilo que dói e magoa e não para aquilo que, objectivamente, eu deveria estar a fazer. Sinto a tristeza. Imensa, como um mar, no qual navego com a cabeça ligeiramente à tona. Sinto a desmotivação, o meu mexer automático e desligado do mundo. Conduzo, falo, almoço, raciocino, mas não estou cá.
Lembro-me do meu companheiro e enterneço-me. O amor dele faz-me muito bem.

quinta-feira, 5 de março de 2009

Nós e os outros

Como se lida com a tristeza e a frustração dos outros? Dos pais, irmãos, amigos, que devagar começam a adivinhar que alguma coisa se passa? Como dizer-lhes, sabendo que vão sofrer? Como resguardar a privacidade do casal num momento destes?

No primeiro ciclo de FIV que fizemos, não me lembro na minha vida de ter mentido a tanta gente ao mesmo tempo. As faltas ao trabalho, o cansaço com que nos apresentamos, o incómodo do corpo, tudo é explicado com recurso à imaginação. Não se quer logo revelar a causa das coisas. Julgo que por acreditar que talvez não seja preciso esse passo tão definitivo. Acalento-me a pensar que conseguirei uma gravidez antes de ter que revelar ao mundo a verdade. E se a tiver que revelar, que seja em glória e não em fracasso.

Revelar perturba-me. Imagino a preocupação e demonstração de afecto, mas acrescenta todo um conjunto de expectativas para lidar com. Falar do que aconteceu, resultados, prognósticos, dias de procedimentos, tudo passa a ser público. O querer saber é natural nos outros. As ofertas para apoiar também. As sugestões, as palavras de consolo que, muitas vezes, não acrescentam sentido. Nestas alturas falta a paciência.

quarta-feira, 4 de março de 2009

O tempero do desejo

A ideia de não ter filhos traz-me perplexidade. Em parte porque não corresponde a nada daquilo com que fomos educados desde pequenos e a toda a idealização pessoal do que seja a vida e o amor. É uma situação excepcional na vida das pessoas, nunca se esperando que nos toque a nós. Quando em adultos nos dizem “talvez… não” o confronto é imenso. Acima de tudo porque é imposto, retirando-nos a hipótese de optar, numa área que sempre sentimos que seria vivida livremente, em pleno, e que, por isso, seria extraordinariamente compensatória.
A ideia de não ter filhos carrega um estranho sentimento de solidão. Como se, de repente, ficássemos mais sós. Como se uma parte da nossa vida, certa de êxtase, ficasse abruptamente esvaziada e nos fosse dada a tarefa – impossível – de a compensar. Se sim, muito bem, mas e se não? Como o compensar? Como o sarar? Pensa-se em tudo. Num esforço de realismo, o que não implica obviamente desistência. Talvez o não querer ser apanhado completamente desprevenido, tal a força do desejo. As águas misturam-se. Quer-se, e ao mesmo tempo preparamo-nos para a desilusão, num esforço que classifico como francamente violento. Acima de tudo porque se tem medo, muito medo mesmo, do dia em que nos possamos vir a confrontar com o não final, com a última tentativa gorada e nos vermos perante a ingrata tarefa de, sozinhos, recriar o desejo e o sonho para outras paragens, incapazes de igualar.

segunda-feira, 2 de março de 2009

Saber

Na passada semana soube que o resultado do primeiro ciclo de FIV (Fertilização in Vitro) que realizamos foi negativo.

Recordo-me de ter visto, há muitos anos, um filme norte-americano que contava a seguinte história verídica. Um casal tinha duas filhas e a dada altura estas, tinham cerca de cinco e sete anos, adoecem com uma doença que nenhum médico conseguia diagnosticar. Depois de recorreram a inúmeros especialistas, os pais acabam por encontrar um que a consegue identificar. Ambas as meninas sofriam de uma doença rara (cujo nome já não recordo) que, entre outros efeitos, não lhes permitia suportar a luz solar. A doença era incurável, pelo que as duas meninas teriam que viver para sempre afastadas da luz e irradiação solar. As alterações que isto trouxe às crianças e à família foram esmagadoras. Todos passaram a ter que viver no escuro. A casa e o carro tinham as janelas permanentemente tapadas. Durante o dia as crianças não podiam sair à rua, o que lhes sugou, num ápice, toda a normalidade da sua vida anterior. Quando o faziam, tinham que ter o corpo completamente tapado, o que atraía os olhares e os comentários das pessoas. A família acabou por sofrer a incompreensão da comunidade envolvente, que não compreendia os “estranhos hábitos” a que se sujeitavam. Os pais acabam por se desempregar e mudar de cidade. A doença em causa, de ocorrência verdadeiramente excepcional, tinha origem genética. Ambos os pais se submeteram a testes para averiguar qual dos dois é que transportava o gene. A questão mais se punha, uma vez que a mãe tinha um filho de um primeiro casamento, saudável até então. Os resultados são esmagadores. Ambos os pais tinham aquele gene, de natureza raríssima. O médico diz-lhes, com tristeza, procurando expressar o carácter verdadeiramente excepcional daquela situação que “eles eram as últimas pessoas no mundo que se podiam ter juntado”. Para ambos, a revelação é avassaladora. O pai, desfeito, sai do consultório. A mãe fica, lavada em lágrimas. E pergunta ao médico, no seu imenso sofrimento: “sabe o que é viver na escuridão?”. Não – responde este, olhando-a com profunda compaixão – mas sei que é uma bênção ter com quem partilhar.
Sei que é uma bênção ter com quem partilhar. Foi esta frase que me ficou. Fez-me sentido na altura. Hoje, mais sentido me faz. A desilusão é ainda mais insuportável quando vivida sozinho.