quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Conseguir

Talvez a única coisa correcta que eu possa fazer agora é não me fazer sofrer. Viver um dia de cada vez e uma situação de cada vez. Não adianta angustiar-me, ficar ansiosa, martirizada, cheia de pena de mim própria. Um passo de cada vez na vida. Tenho idade suficiente para saber que a ansiedade e a pressão que sentimos pouco ajudam. Vou ser capaz, independentemente do destino que as coisas levarem. Vou ser capaz de encontrar o meu lugar. Sinto que não tem havido justiça, é bem verdade que sinto, mas que posso fazer? Os outros são como são. Eu sou como sou. Não posso negar a minha natureza e o meu ímpeto. Tenho muita coisa nas próximas semanas, à minha espera. Vou viver cada uma delas com tempo, sem pressas, nem angústia. O novo ciclo irá sem dúvida nascer.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Estou à espera

Ontem tivemos uma consulta de preparação para o próximo ciclo, que vai transferir os dois embriões que estão congelados. Sinto-me quase que anestesiada. Já pouco mexe no peito. Parece que estávamos a falar de nada, afinal. Sinto-me numa fase em que apenas avanço, sem capacidade de colocar emoção, expectativa, desejo ou seja lá o que for. Estou muito cansada. Os últimos anos têm sido difíceis, com muita desilusão. Acho que muito tenho conseguido gerir, afinal. Mas continuo muito desiludida ainda com coisas essenciais (ou será que não o são?).

Não acredito muito neste ciclo. Os embriões têm alguma fragmentação celular. Sinto que, porventura, é um passo necessário para continuar para um próximo ciclo, uma vez que estes embriões teriam sempre que ser transferidos. Mas estou pouco crente. No anterior alimentei muito mais expectativa.

Sinto que estou à espera que o universo me mande um sinal. Algo em que me apoie. Algo que me faça decidir o que vai ser a minha vida daqui em diante. Preciso de mudança. De acreditar. A minha vida profissional melhorou substancialmente. Fiz fracturas, investi muito. Agora tenho tido a recompensa. Não me posso queixar da minha situação actual. No campo afectivo é que dói mais. A fragilidade da relação com o meu companheiro e o problema da infertilidade têm sido muito difíceis de aguentar, conciliar, acreditar que posso seguir em frente. Estou à espera.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

A Deus

A minha avó faleceu na terça-feira. A sua morte tocou-me fundo, num sítio que nem eu sabia que existia. Tinha 90 anos perfeitos. Sem mácula. De repente, o seu corpo decidiu adoecer. Esperou apenas uma semana e meia para se despedir dos seus e lhes deixar o aviso, mínimo, de que ia partir. Da mesma maneira que durante toda a sua vida, também na morte correu à nossa frente, sem que a conseguissemos acompanhar. Era o expoente da autonomia e independência. A noticia da sua doença soou como um soco. Era imortal e imbatível. Nada no universo faria supor que tinha que ir. A sua morte, sentia-a como algo imposto à força, arrancado apenas da compreensão, devastando os sentidos e esmagando qualquer fé. Fiquei com um buraco escuro no peito. De dor, perplexidade, tristeza. E uma saudade imensa. Fez-me reviver todos os minutos passados a seu lado, tendo-me deixado a certeza das melhores memórias. E o consolo de uma relação de 40 anos feita do melhor que pode haver. A sua vida e a sua personalidade são, para mim, exemplos. Obrigada avó, por tudo.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Retalhos

Os últimos tempos têm sido estranhos. Aconteceram muitas coisas que me tocaram profundamente.

A primeira talvez tenha sido a súbita doença da minha avó. É a última avó que tenho viva. A possibilidade do seu desaparecimento mexeu profundamente comigo. Por muitas razões. Por tudo aquilo que ela é como pessoa, por encerrar um capítulo, uma ligação à terra, a rituais que nos faziam sentir inteiros. A notícia da sua doença fez-me reviver toda a minha infância, perspectivar toda a minha vida. É uma avó especial que sempre me fez sentir especial. Pensar que pode não conhecer os meus filhos magoa-me. Parece que falho naquilo que é o ciclo da vida.

No dia a seguir soube de uma antiga amiga, também ela com um problema de infertilidade, que perdeu os dois bebés que transportava. Um ainda nasceu com vida, mas partiu pouco tempo depois. Não consigo sequer imaginar o que é passar por uma experiência destas. Ter o ventre cosido de uma cesariana e estar a despedir-se de dois filhos que pouco estiveram consigo, sabendo que conseguir outra gravidez pode ser uma difícil tarefa. Senti profundamente por ela.

Dois dias depois, almocei com um tio avô. Nunca teve filhos, situação que na sua altura, mais inexplicável era pela ciência. Nunca, ela e a mulher, tocaram no assunto com a família. Eram outros tempos... De repente, diz-me que à noite costuma olhar para trás a pensar a sua vida. Uma das coisas que o inquieta é nunca ter tido filhos. Parei, surpresa e emocionada com a confidência. Disse-me que se pergunta que sentido é que a sua vida teve. Estranho o ser humano... Há coisas universais que, mesmo que todo o resto nos tenha sido de feição (como é o caso deste meu tio avô) nos marcam existencialmente. Não conseguir ter filhos é uma delas. Respondi-lhe que a vida humana é demasiado complexa para encontrar receitas certas para a felicidade e que tudo tem um sentido afinal.

Hoje, ao almoço, vi um pouco de televisão. Estava a dar um debate em que um dos temas abordados era a baixa da natalidade. Ouvi coisas gritantes de uma das palestrantes relativamente a mulheres sem filhos. Grosseiramente, assumia que uma mulher sem filhos é porque não os quis, e não porque não os pode ter. Sempre conheci mais mulheres (e homens) que não puderam, do que mulheres (e homens) que conscientemente não os quiseram.

Enfim, estranha coincidência esta em que tenho sido ultimamente bombardeada com questões sobre o ter ou o não ter. Sobre o nascer e o morrer.

Sei uma coisa. Em mim, a vivência da infertilidade e a possibilidade de vir a morrer sem filhos acrescentou-me imensa humildade e compreensão face ao sofrimento dos outros. Nada é em vão.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Neptuno a sair da frente

Sinto-me melhor. Talvez esteja a compreender - finalmente - a essência disto tudo, da vida, do nosso percurso cá. Estou mais serena, tranquila, aceitante. A aceitar que aquilo que tenho é aquilo que efectivamente posso ter. A vida é tão diversa na sua ocorrência. Talvez a essência seja mesmo desejar, mas sem sofrimento.