terça-feira, 18 de agosto de 2009

Algo simples

Regressei de férias. Soube-me bem parar, embora por dentro não tenha parado um único minuto. Às vezes fazia um esforço para tentar parar, acalmar a mente. Mas em vão. Acho que toda a minha vida passou à minha frente. Acho que analisei tudo. Conclusões? Nenhuma em especial. Vontade de fugir, vontade de ficar, ressentimento, esperança, ódio, amor, compreensão, ciúme, enfim, de tudo um pouco. Sinto que como está, e refiro-me à minha situação com o meu companheiro, as coisas não podem prolongar-se muito mais tempo. É demasiado pesada a inactividade dele, eu ter sempre que carregar tudo, decidir tudo, viver tudo pelos dois. Depois, já não sou uma menina, já conheci muita gente e sei o que a vida tem para oferecer. Não há muito melhor. Se não é por uma coisa, é por outra. Estou a ter muitas dificuldades em resignar-me, aceitar, aceitar que a vida é assim. Reconheço os meus progressos, mas são tão lentos. A questão da infertilidade veio piorar tudo. Veio cair numa relação que de si já tinha muitas fragilidades. Muitas feridas expostas. Muita exigência de compreensão, tempo e paciência. Talvez seja mesmo só feita disso. Sei que recebo. E tenho recebido bastante. Mas existem falhas em áreas centrais, que são dificeis de esquecer, assobiar para o lado. Às vezes penso que um bebé era a pedra toque para equilibrar o prato na balança. Dar algum sentido e justiça à vida. Pôr-me a mim a receber, para variar. Neste momento na minha vida já não peço a relação perfeita, peço apenas algo simples: ter 1 filho.

quarta-feira, 29 de julho de 2009

Dói apenas

Há dias horríveis. Em que apetece fugir, desistir, rasgar tudo, zangar-me definitivamente com o mundo. Deus me ajude, que às vezes não sei onde vou buscar as forças. Tenho tanto à minha frente em que trabalhar, produzir, enriquecer-me, mas esta ferida aberta rasga com uma violência que me deixa sem forças, sem energia, sem fé. Quero a minha paz. Só quero a minha paz. Já vai sendo tempo dela.

terça-feira, 28 de julho de 2009

Sarar

A depressão abate-se sem qualquer aviso. Existem mais que razões para que ela apareça, mas quer-se acreditar que seremos poupados a essa parte. Quem dera puder desligar o interruptor e só acordar daqui a uns tempos, quando estivesse já a iniciar novo tratamento. Mas não, é necessário fazer o luto de cada tentativa falhada. Reviver tudo, uma nova vez. Sentir o medo, a desesperança. Tudo isto implica com o meu dia-a-dia. Falta a motivação, a alegria para o quotidiano. É razoável que assim aconteça. Afinal somos feitos de quê? Ferro? A recuperação é lenta...

Ontem, quando cheguei a casa, vinha de um dia de lágrimas mal contidas. Senti uma tristeza horrível o dia todo. Precisei falar com o meu companheiro. Tenho muita sorte com ele. É profundo, empático, compreensivo. Chorei um pouco, soube-me bem. Compreendo que é mesmo necessário pôr cá para fora, partilhar a dor e a tristeza. Disse-me que também ele estava triste e desiludido. Senti-o na sua voz. Emocionou-se também.

De alguma forma, sinto-me orgulhosa de nós dois. Existe uma enorme compreensão e respeito por aquilo que um e outro passa. Não existe culpa, ressentimento ou dedos apontados. Existe reconhecimento de todo o esforço envolvido, de parte a parte. É impossível um e outro investirem exactamente na mesma medida, nas mesmas coisas. Antes, é uma dança a dois, em que da diferença dos passos se constrói um todo harmonioso.

Mais um dia. Um novo sol. Um pouco mais de alívio. O tempo ajuda ao luto. Pegar em qualquer coisa do nosso quotidiano também. Recomeçar devagar, com respeito pelos "pés torcidos", que não nos deixam correr normalmente. Dar-nos tempo. Inclusive para escrever no blogue!

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Vamos andando

São sustos de angústia. Momentos em que nos lembramos do que está a acontecer. Interrogações profundas de como é que se poderá sobreviver a isto. Depois, instantes de pausa, em que se esquece. Depois volta à lembrança. Compreendo mais hoje quando leio pessoas a dizer que este é um problema que não pode durar para sempre. É horrivelmente desgastante. Toca um dos pontos mais sensíveis da vida e sempre pelo lado negativo, "o que não se tem". Magoa, desgasta, corrompe. Essencialmente desacredita. Desacredita-nos da vida e de qualquer lógica subjacente. É andar, é andar, minha gente. Como se não pudéssemos esperar por nada. Simplesmente andar por cá.

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Parar

Ontem fiquei em casa. Precisei de um intervalo, de um espaço para mim. Há que encontrar tempo e espaço para a alma e para o corpo. Cada vez sinto mais que a vida não é feita de correria, e que estas nos trazem muito pouco. Não se pode fingir que se está "óptimo" e que o dia a seguir é um dia igual aos outros, com muita produtividade e energia no trabalho. O tempo que retirei para mim foi muito bom, fez-me sentir melhor. Hoje regressei ao trabalho, com outro alento. Triste, mas de pé, e com capacidade de reagir face ao que tenho que fazer. Olho para trás e sinto que sempre me esforcei tanto. Em todas as dimensões da minha vida, pessoal, familiar, profissional, tudo... Nada vale a pena tanto esforço. Com isto quero eu dizer que investir é necessário, mas com consideração por nós próprios, pelas nossas necessidades de pausa, de descanso. E sobretudo, compreender que, apesar de todo o esforço e investimento, existe uma parte da vida que não se controla, não se domina. Simplesmente acontece, independentemente de qualquer lógica.

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Ter com quem

Negativo. Li-o à transparência no boletim das análises, até nem precisava virar a folha. Ficámos sem reacção, quase. Profundamente tristes e desiludidos. Pouco falámos até chegar a casa. Não sei bem descrever o que senti. Quase como se aquela cena não estivesse a acontecer, e tudo se tratasse de um filme. Acho que as minhas emoções já estão muito protegidas e o investimento, a esperança depositada, é menor, é cautelosa. Em casa, sentámo-nos na sala e alí ficámos, a olhar em frente, de mãos dadas, a soltar a fala. Chorei em silêncio, as lágrimas caiam-me devagar. Aliviada, ao mesmo tempo, por saber qual o meu real. Triste, pela ausência do milagre. Mas, devo confessar, que na minha profunda tristeza e desilusão, existia uma enorme serenidade. A ideia de não puder ter filhos faz crescer muito. Obriga-nos a pensar a vida exactamente como ela pode ser; brutal, sem lógica ou justiça. Deliciosa também. Ontem, quando olhava para o meu companheiro, amei-o profundamente. Gosto muito deste homem e de tudo o que trouxe para a minha vida. Neste momento, não a consigo imaginar sem ele. Estamos nisto, os dois, a 100%. O investimento é enorme, de parte a parte. Houve uma altura em que a minha cabeça vagueava, em planos de "salvamento" para mim mesma. Hoje já não quero ser salva de coisa nenhuma. A Bela Adormecida não existe. Existe aquilo que existe. Eu e ele. O nosso amor. O meu talento. O talento dele. A família. Os amigos. A esperança. A capacidade de a perder e voltar a viver.

Vamos voltar a tentar. Temos 2 embriões "congelados" à espera. Já falámos com a nossa médica e a consulta de avaliação ficou para depois das férias. Sem sobressaltos. Fico espantada com a serenidade que sinto. Hoje, sinto-me mais tranquila face à probabilidade de eventualmente ficar sem filhos. A felicidade é de facto um lugar estranho, sem receita certa. E estranhamente, a infertilidade, pelo menos no meu caso, obrigou-me a saber mesmo, mas muito mesmo, o que sinto pelo meu companheiro. Isso dá uma força e uma tranquilidade imensas.

Ontem, adormeci, exausta, ao colo do meu companheiro. É, de facto, uma benção ter com quem partilhar.

terça-feira, 21 de julho de 2009

Regresso ao "nós"

A minha segunda FIV foi vivida em privacidade, apenas entre mim e o meu companheiro. Inclusivamente cheguei a mentir a uma pessoa, dizendo que não estávamos a tentar. Fiquei, um dia, a pensar porque é que desta vez não tinha tido nenhuma - mas mesmo nenhuma! - necessidade de contar a ninguém. Julgo que por não estar já a viver o trauma. No primeiro ciclo de FIV que fizemos, tínhamos recebido há pouco tempo a notícia do nosso problema, eu estava em estado de choque, incrédula e revoltada com o que me estava a acontecer. Senti muita necessidade de desabafar, de gritar, de sentir a empatia dos outros. Agora isso já passou. Posso voltar ao interior da minha relação e pensar e "fazer" filhos como qualquer casal. Na nossa intimidade e privacidade. Sinto-me muito bem assim. Durante todo o processo, em momento algum, senti a tentação de revelar que estávamos a tentar novamente. Penso, mas isto é muito subjectivo, que uma vivência excessivamente "comunitária" destas questões origina ainda mais stress, uma vez que se tem que contar com as expectativas dos outros, com a sua vontade de apoiar (nem sempre oportuna), com a sua vontade em saber, com a sua desilusão, com o querermos tratar bem os amigos e contar-lhes "atempadamente" o que vai acontecendo. Nem sempre isto acrescenta calma, intimidade, privacidade.

Este blog serve apenas como diário, não tenho nenhuma ideia de o divulgar em massa. Se alguém o encontrar... melhor, mas será um acaso. Divulguei-o a uma mulher com a qual tenho imensa empatia e respeito, e que enfrenta já uma história de infertilidade muito prolongada. Sinto bondade no seu coração e por isso senti vontade de o mostrar.